O MAIS recente filme de Joaquim Leitão, Tentação, revela-se um sucesso comercial, tendo ultrapassado em tempo recorde a fasquia dos 200 mil espectadores, e parece em vias de se tornar o maior êxito português de bilheteira desde há muitas décadas. O acontecimento, que deve alegrar todos os que se interessam pelo progresso do cinema português, suscita algumas reflexões, que se podem estender a outros filmes portugueses.
Tomemos o exemplo de Ossos, de Pedro Costa, cujo número de espectadores ronda os 20 mil. À primeira vista, a «disparidade» dos números pode provocar sorrisos, servindo para alimentar a estéril querela que há muito existe no «meio» do cinema português entre os que defendem um cinema «artístico» a todo o custo e os que acham que só o cinema «comercial» pode salvar a nossa «cinematografia» - como se um filme comercial não pudesse ser também «artístico» e outro desta categoria não possa tornar-se um êxito de bilheteira.
Se escolhemos Ossos para colocar ao lado de Tentação é porque o filme de Pedro Costa, à sua medida, constituiu também um apreciável êxito. A questão não está em optar por um contra o outro e sim em perceber que ambos têm um mercado e que o que interessa é que cheguem a ele. Digamos que neste caso, tanto Tentação como Ossos alcançaram esse objectivo. Atentar na forma como lá chegaram poderá ser uma lição proveitosa para o futuro de outros filmes. Em termos de distribuição, Tentação foi mais longe do que o filme anterior de Leitão, Adão e Eva. Pela primeira vez, um filme teve um lançamento simultâneo de 30 cópias, facto que poderá ficar como uma «data» na história do cinema português, fazendo-nos desejar que inaugure também uma «época», tal como Tubarão o fez no cinema americano de hoje (recorde-se que foi o filme de Spielberg que lançou o sistema da estreia de centenas, e depois milhares, de cópias de um mesmo filme em simultâneo, razão principal da aparição da série de «blockbusters»).
Mas a característica mais importante desta operação foi a sua amplitude nacional, estreando-se através da rede de exibição da Lusomundo. Quase todo o país pode ver, por isso, o filme de Joaquim Leitão.
Poderia outro filme, que não Tentação, alcançar o mesmo objectivo? (Feita a pergunta de outra forma: poderia Tentação alcançar esse objectivo sem a Lusomundo?). Curiosamente, Ossos veio mostrar que sim. Para além das três salas da Atalanta que ocupou em Lisboa e das duas do Porto, o filme de Pedro Costa correu por outras 16 cidades, em cinemas da distribuidora e outras salas independentes (vale a pena destacar que no AMC de Gaia, situado numa «catedral do consumo» do Norte, Ossos não se saiu mal, com os seus 2083 espectadores).
O que se verifica é que dois filmes, em princípio dirigidos a públicos diferentes, lograram alcançar o objectivo final a que (como todos) se propõem: chegar a esses públicos. E tal só foi possível devido à «aposta» feita por ambas as distribuidoras. O que nos leva para a questão central: a do «mercado» e dos agentes que o dominam, da livre concorrência e da possibilidade de outros filmes terem as mesmas oportunidades, a que a estreia esta semana do filme de João César Monteiro, Le Bassin de J.W., parece trazer a nota dissonante.
De facto, Tentação e Ossos mostram que existe «mercado» para qualquer filme português, que existe um público mais «geral» para o cinema de Leitão e um mais restrito, mas não menos interessado e capaz de «sustentar» o êxito, para o de Costa. A questão básica está no acesso a esse mercado, poderia concluir e com razão o filme de Monteiro.
E é aqui que, no fim de contas, o Governo, através da Lei do Cinema, poderá ter uma palavra a dizer, que será a de garantir essa igualdade de oportunidades, de modo a evitar que uns sejam «filhos» e outros «enteados». Por muitos discursos bonitos e convincentes que as duas forças atrás referidas, que se enfrentam no cinema português, possam proferir.
M.C.F., Expresso, 03/12/1998
quinta-feira, 31 de dezembro de 1998
Noticias 1998
14 DE JANEIRO 1998
A estreia de TENTAÇÃO (1997 - Joaquim Leitão) bate recordes comerciais no cinema português, com 203.853 espectadores em 18 dias.
INSTITUTO CAMÕES
22 DE JANEIRO 1998
Lusomundo anuncia que PESADELO COR-DE-ROSA de Fernando Fragata, e ZONA J de Leonel Vieira, ainda em exibição, atingiram - respectivamente - 181.341 e 187.574 espectadores, passando a integrar a lista dos 5 filmes portugueses mais vistos de sempre, da qual já constavam O LUGAR DO MORTO (1984) de António-Pedro Vasconcelos, ADÃO E EVA (1995) e TENTAÇÃO (1997) de Joaquim Leitão.
INSTITUTO CAMÕES
A estreia de TENTAÇÃO (1997 - Joaquim Leitão) bate recordes comerciais no cinema português, com 203.853 espectadores em 18 dias.
INSTITUTO CAMÕES
22 DE JANEIRO 1998
Lusomundo anuncia que PESADELO COR-DE-ROSA de Fernando Fragata, e ZONA J de Leonel Vieira, ainda em exibição, atingiram - respectivamente - 181.341 e 187.574 espectadores, passando a integrar a lista dos 5 filmes portugueses mais vistos de sempre, da qual já constavam O LUGAR DO MORTO (1984) de António-Pedro Vasconcelos, ADÃO E EVA (1995) e TENTAÇÃO (1997) de Joaquim Leitão.
INSTITUTO CAMÕES
quarta-feira, 31 de dezembro de 1997
Noticias 1997
28 JAN 97 - 10:49
Cinema: "Adeus, Pai" já foi visto por mais de 50 mil pessoas
Lisboa, 28 Jan (Lusa) - O filme "Adeus, Pai", de Luis Filipe
Rocha, que está na sexta semana de exibição, já foi visionado por
mais de 50 mil espectadores, anunciou hoje a produtora MGN Filmes.
"Adeus, Pai" é o 16º filme português a ultrapassar esta
fasquia no universo das 115 películas nacionais estreadas depois do
25 de Abril.
Na década de 90, num total de 52 filmes estreados, só "Adão e
Eva", de Joaquim Leitão, "Mortinho por Chegar a Casa", de Carlos
Silva, e "Non, ou a Vã Glória de Mandar", de Manoel de Oliveira,
ultrapassaram os 50 mil espectadores.
"O Lugar do Morto" (1984), de António Pedro de Vasconcelos, e
"Adão e Eva" (1996), de Joaquim Leitão, foram vistos por mais de 250
mil pessoas, enquanto "Kilas, o Mau da Fita" (1981), de Fonseca e
Costa, "A Vida é Bela" (1982), de Luís Galvão Teles, e "Os Abismos da
Meia Noite" (1984), de António Macedo, ultrapassaram a quota dos 100
mil espectadores.
Lusa/Fim
segunda-feira, 30 de junho de 1997
Entrevista de Pedro Mexia a Jorge Silva Melo
???ReplayView.logoAltText???Arquivo da Web Portuguesa - ligações exteriores, formulários e caixas de pesquisa poderão não funcionar corretamente. URL: http://www.dn.pt/dnj/tex99dnj.htm Data: 21:26:23 13 Junho, 1997 [ [esconder] ]
Entrevista
Pedro Mexia fez, há um ano, uma longa entrevista com Jorge Silva Melo, destinada à edição regular do DNJ em papel. As alterações de formato ocorridas a 28 de Maio (de oito páginas para uma, mantendo-se a versão integral apenas na Internet) levaram-no a congelar este trabalho.
Verificando que o essencial da conversa resistiu às vicissitudes do tempo, decidiu, com ligeiras modificações, proporcionar-nos agora essa entrevista. Dada a sua extensão, vamos dividi-la em três semanas consecutivas.
e nascer português é uma tragédia, ser cineasta português é uma tragédia ainda maior?
- Não. É muito bom, porque as condições de invenção formal e narrativa e o lado improvisado de muitas coisas são únicos no cinema. Receio que isso esteja a acabar. Estou ligado ao cinema desde 69 e garanto que os meus dias mais felizes foram aqueles em que consegui trabalhar. O mais difícil não é arranjar dinheiro, mas distribuição para os produtos estranhíssimos, originais, pessoais, secretos que vamos criando. Que haja pouca gente interessada em ouvi-los e vê-los é estranho; acho que foi sendo criada uma gigantesca barreira ideológica que impede que esses produtos frágeis, sensíveis, humanos possam chegar às pessoas suas contemporâneas. Mas não é tragédia nenhuma, pelo contrário, é um motivo de orgulho muito grande.
- Uma pequena cinematografia como a portuguesa está "condenada" ao cinema de autor?
- Não creio que possa existir cinema sem ser de autor. Essa polémica animou os Cahiers du Cinéma nos anos 50. Godard diz que a Cinemateca é uma espécie de Orfeu que olha para trás e portanto perde a sua Eurídice, vai matando o cinema que está atrás de si próprio, vai deixando morrer. Acho que isso é um bocado verdade. Mas quando eu nasci para o cinema já o autor era a personagem-chave; foi muito depois do Mankiewicz. É indispensável que o cinema contemporâneo, depois de Rosselini, seja muito pessoal. Nos anos 80 renasceu uma ideia do cinema grande espectáculo, mas não me interessa de todo.
- Mas parece, até por exemplos recentes no cinema português, que em termos de público um cinema mais americanizado, menos pessoal, tem tido algum sucesso.
- Sim e não. Os últimos filmes do cinema português têm corrido razoavelmente bem, ou seja, há uma apetência pela diversidade das formas. Houve sempre no cinema português grandes êxitos - O Lugar do Morto, o Adão e Eva, a Crónica dos Bons Malandros - mas são todos projectos muito pessoais. Ao contrário do cinema que muitas vezes se quer hollywoodiano, o Joaquim Leitão tem um olhar muito pessoal, há ali uma vontade de narrar extremamente pessoal. Acho que é um equívoco pensar-se que ele faz um cinema industrial.
- Não há por parte de alguns cineastas uma tendência para a abdicação? Por exemplo, o caso do Galvão Telles, que a certa altura faz A Vida é Bela...
- Mas isso é uma monstruosidade normal de solidão, é uma pessoa desesperada por não ter encontrado o sucesso, e que pensa que achou a receita para viver o resto da vida reconciliado com o público. Não é esse o caso do Joaquim Leitão, que tem da humanidade uma visão pessoal, mesmo quando essa visão coincide com a de algum cinema americano pós anos 70. Ele entende-se bem com essa forma de narrar, tal como o António Lobo Antunes se identifica com uma determinada narrativa contemporânea americana. São pessoas que têm alguns pontos de contacto. Aliás, há um filme do Joaquim Leitão, Uma Vida Normal, que podia ser do António Lobo Antunes...
- Sempre que aparece algo nessa linha "americana", lança-se a ideia de que este é que é um filme que dá gosto as pessoas verem...
- Mas isso também acontece na música e na literatura. Quando surgiu o Lobo Antunes foi a mesma coisa: "Agora finalmente há um romance português que se pode ler, não é só a chatice do costume". É uma ideia muito esquisita numa cultura tão tradicional como a portuguesa, parece que não existia Cardoso Pires, Redol, Eça de Queiroz, ... ou seja, todos os que quiseram modernizar ou actualizar uma determinada narrativa em Portugal. Com o Joaquim Leitão, também. Parece que, antes dele, não houve o António Pedro Vasconcelos e o António Macedo, que obteve um enorme êxito com A Promessa. E o mesmo se passa no teatro com o Filipe la Féria: o Passa Por Mim no Rossio não é um êxito muito maior do que foi, nos anos 60, A Maluquinha de Arroios, encenada pelo Carlos Avilez.
- Não lhe parece que é lícito os cineastas pensarem que estão agora no princípio do cinema português?
- Mas sempre se pensou isso. A Costureirinha da Sé, do Manuel Guimarães, é considerado um dos piores filmes portugueses, e eu acho-o interessantíssimo. É um filme pobre, limitado, mas estão ali muitas das premissas que fizeram o grande cinema do Jacques Demy. É brilhante, por exemplo, a maneira como ele trata a publicidade, e alguma da planificação. Há coisas que estão ainda muito escondidas por ideologia, porque se decidiu esconder.
- Mas a ideologia é precisamente a questão. Sabendo nós que as grandes comédias lisboetas são quase filmes políticos por recusarem a política, e têm uma dissimulada carga ideológica ou, melhor dizendo, mitológica, como é que encara o seu sucesso pós-25 de Abril? Com preocupação?
- Com preocupação, no sentido em que vejo a necessidade de uma coisa a que se chamou identidade nacional e que é muito confundida com o fascismo português. É o mesmo êxito do Passa por Mim no Rossio. Pensa-se: estes são os nossos artistas, estes são os nossos bairros, esta é a minha Lisboa, e esse culto é muito confundido com a ideologia do Estado Novo. É uma coisa estranhíssima. Têm grandes actores, mas 99% desses filmes são pura estopada, que não vale a pena sequer voltar a ver. Mas continuam a ser vistos, enquanto muitos outros vão sendo silenciados.
- Alguns são indiscutivelmente grandes filmes, como "O Pai Tirano". Será que muita gente gosta de bons filmes por más razões?
- Não, O Pai Tirano é inegavelmente um bom filme e acho que toda a gente gosta dele pelas mesmas razões. E o mesmo com A Canção de Lisboa. Há ali um sentido de jogo, brincadeira e alegria que é simples. Agora 99% dos filmes que foram filhos desses são pura estopada.
- Acha que há aí um sentimento de nostalgia?
- De nostalgia e de reconhecimento dos valores em que toda a família fica unida, do filho à avó.
- E marchando no sentido inverso ao proclamado Portugal europeu. Quer dizer, é um regresso à pequenez, ao bairro.
- Exactamente.
Pedro Mexia, Dn Jovem
Entrevista
Pedro Mexia fez, há um ano, uma longa entrevista com Jorge Silva Melo, destinada à edição regular do DNJ em papel. As alterações de formato ocorridas a 28 de Maio (de oito páginas para uma, mantendo-se a versão integral apenas na Internet) levaram-no a congelar este trabalho.
Verificando que o essencial da conversa resistiu às vicissitudes do tempo, decidiu, com ligeiras modificações, proporcionar-nos agora essa entrevista. Dada a sua extensão, vamos dividi-la em três semanas consecutivas.
e nascer português é uma tragédia, ser cineasta português é uma tragédia ainda maior?
- Não. É muito bom, porque as condições de invenção formal e narrativa e o lado improvisado de muitas coisas são únicos no cinema. Receio que isso esteja a acabar. Estou ligado ao cinema desde 69 e garanto que os meus dias mais felizes foram aqueles em que consegui trabalhar. O mais difícil não é arranjar dinheiro, mas distribuição para os produtos estranhíssimos, originais, pessoais, secretos que vamos criando. Que haja pouca gente interessada em ouvi-los e vê-los é estranho; acho que foi sendo criada uma gigantesca barreira ideológica que impede que esses produtos frágeis, sensíveis, humanos possam chegar às pessoas suas contemporâneas. Mas não é tragédia nenhuma, pelo contrário, é um motivo de orgulho muito grande.
- Uma pequena cinematografia como a portuguesa está "condenada" ao cinema de autor?
- Não creio que possa existir cinema sem ser de autor. Essa polémica animou os Cahiers du Cinéma nos anos 50. Godard diz que a Cinemateca é uma espécie de Orfeu que olha para trás e portanto perde a sua Eurídice, vai matando o cinema que está atrás de si próprio, vai deixando morrer. Acho que isso é um bocado verdade. Mas quando eu nasci para o cinema já o autor era a personagem-chave; foi muito depois do Mankiewicz. É indispensável que o cinema contemporâneo, depois de Rosselini, seja muito pessoal. Nos anos 80 renasceu uma ideia do cinema grande espectáculo, mas não me interessa de todo.
- Mas parece, até por exemplos recentes no cinema português, que em termos de público um cinema mais americanizado, menos pessoal, tem tido algum sucesso.
- Sim e não. Os últimos filmes do cinema português têm corrido razoavelmente bem, ou seja, há uma apetência pela diversidade das formas. Houve sempre no cinema português grandes êxitos - O Lugar do Morto, o Adão e Eva, a Crónica dos Bons Malandros - mas são todos projectos muito pessoais. Ao contrário do cinema que muitas vezes se quer hollywoodiano, o Joaquim Leitão tem um olhar muito pessoal, há ali uma vontade de narrar extremamente pessoal. Acho que é um equívoco pensar-se que ele faz um cinema industrial.
- Não há por parte de alguns cineastas uma tendência para a abdicação? Por exemplo, o caso do Galvão Telles, que a certa altura faz A Vida é Bela...
- Mas isso é uma monstruosidade normal de solidão, é uma pessoa desesperada por não ter encontrado o sucesso, e que pensa que achou a receita para viver o resto da vida reconciliado com o público. Não é esse o caso do Joaquim Leitão, que tem da humanidade uma visão pessoal, mesmo quando essa visão coincide com a de algum cinema americano pós anos 70. Ele entende-se bem com essa forma de narrar, tal como o António Lobo Antunes se identifica com uma determinada narrativa contemporânea americana. São pessoas que têm alguns pontos de contacto. Aliás, há um filme do Joaquim Leitão, Uma Vida Normal, que podia ser do António Lobo Antunes...
- Sempre que aparece algo nessa linha "americana", lança-se a ideia de que este é que é um filme que dá gosto as pessoas verem...
- Mas isso também acontece na música e na literatura. Quando surgiu o Lobo Antunes foi a mesma coisa: "Agora finalmente há um romance português que se pode ler, não é só a chatice do costume". É uma ideia muito esquisita numa cultura tão tradicional como a portuguesa, parece que não existia Cardoso Pires, Redol, Eça de Queiroz, ... ou seja, todos os que quiseram modernizar ou actualizar uma determinada narrativa em Portugal. Com o Joaquim Leitão, também. Parece que, antes dele, não houve o António Pedro Vasconcelos e o António Macedo, que obteve um enorme êxito com A Promessa. E o mesmo se passa no teatro com o Filipe la Féria: o Passa Por Mim no Rossio não é um êxito muito maior do que foi, nos anos 60, A Maluquinha de Arroios, encenada pelo Carlos Avilez.
- Não lhe parece que é lícito os cineastas pensarem que estão agora no princípio do cinema português?
- Mas sempre se pensou isso. A Costureirinha da Sé, do Manuel Guimarães, é considerado um dos piores filmes portugueses, e eu acho-o interessantíssimo. É um filme pobre, limitado, mas estão ali muitas das premissas que fizeram o grande cinema do Jacques Demy. É brilhante, por exemplo, a maneira como ele trata a publicidade, e alguma da planificação. Há coisas que estão ainda muito escondidas por ideologia, porque se decidiu esconder.
- Mas a ideologia é precisamente a questão. Sabendo nós que as grandes comédias lisboetas são quase filmes políticos por recusarem a política, e têm uma dissimulada carga ideológica ou, melhor dizendo, mitológica, como é que encara o seu sucesso pós-25 de Abril? Com preocupação?
- Com preocupação, no sentido em que vejo a necessidade de uma coisa a que se chamou identidade nacional e que é muito confundida com o fascismo português. É o mesmo êxito do Passa por Mim no Rossio. Pensa-se: estes são os nossos artistas, estes são os nossos bairros, esta é a minha Lisboa, e esse culto é muito confundido com a ideologia do Estado Novo. É uma coisa estranhíssima. Têm grandes actores, mas 99% desses filmes são pura estopada, que não vale a pena sequer voltar a ver. Mas continuam a ser vistos, enquanto muitos outros vão sendo silenciados.
- Alguns são indiscutivelmente grandes filmes, como "O Pai Tirano". Será que muita gente gosta de bons filmes por más razões?
- Não, O Pai Tirano é inegavelmente um bom filme e acho que toda a gente gosta dele pelas mesmas razões. E o mesmo com A Canção de Lisboa. Há ali um sentido de jogo, brincadeira e alegria que é simples. Agora 99% dos filmes que foram filhos desses são pura estopada.
- Acha que há aí um sentimento de nostalgia?
- De nostalgia e de reconhecimento dos valores em que toda a família fica unida, do filho à avó.
- E marchando no sentido inverso ao proclamado Portugal europeu. Quer dizer, é um regresso à pequenez, ao bairro.
- Exactamente.
Pedro Mexia, Dn Jovem
domingo, 31 de dezembro de 1995
Noticias 1995
Os números de «Adão e Eva»
O filme «Adão e Eva», de Joaquim Leitão, com Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida, fez 12 584 espectadores no primeiro fim- de- semana de exibição, de acordo com números fornecidos pela produtora MGN -- e segundo esta trata-se do melhor resultado de sempre de um filme português. «Adão e Eva» estreou na sexta-feira passada em 15 salas do país e é uma co-produção entre Portugal, Espanha e França.
Público, 27/12/1995
O filme «Adão e Eva», de Joaquim Leitão, com Maria de Medeiros e Joaquim de Almeida, fez 12 584 espectadores no primeiro fim- de- semana de exibição, de acordo com números fornecidos pela produtora MGN -- e segundo esta trata-se do melhor resultado de sempre de um filme português. «Adão e Eva» estreou na sexta-feira passada em 15 salas do país e é uma co-produção entre Portugal, Espanha e França.
Público, 27/12/1995
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